Num dos bairros mais movimentados de Luanda, onde o ritmo da cidade raramente abranda, há um espaço que cresce em silêncio, alimentado por páginas, vozes e sonhos.
É ali, no Marçal, que o Jornal Gazeta do Estudante (JGE) dá início a uma série de reportagens dedicadas às bibliotecas comunitárias, começando pela “Contr’Ignorância”, um projecto que tem vindo a transformar a relação de crianças, jovens e adultos com o conhecimento.
Fundada em 2020 por Adilson Gonçalves, em plena pandemia, a biblioteca nasceu num contexto em que se verificava a ausência quase total do hábito de leitura no bairro. Primeiro, foi a rua: sem paredes nem estantes, apenas livros nas mãos e a vontade de partilhar.
Era apenas a vontade do mentor de aproximar as pessoas do saber através dos livros, inspirado por iniciativas semelhantes, como a “10centralizada”. À equipa de reportagem do JGE, Adilson revela que reuniu, de início, os poucos livros que tinha em casa e, com um grupo inicial de 10 a 17 participantes, deu forma ao projecto no dia 17 de Outubro de 2020. Era, no entanto, um começo modesto, mas carregado de determinação.
Hoje, o cenário é outro. Onde antes havia escassez, há agora cerca de 4.000 livros, todos fruto de doações. Onde havia poucos curiosos, há mais de 60 leitores regulares, de diferentes idades, que encontram naquele espaço não apenas livros, mas possibilidades.

Manter a biblioteca em funcionamento tem sido um desafio
Entre a ausência de patrocínios e os custos de um espaço alugado, a equipa, composta por cerca de 10 membros, resiste com dedicação. Ao JGE, com convicção no conteúdo e no tom, Adilson revela que muitas vezes recorre ao seu próprio salário para garantir que as portas continuem abertas.
Apesar das dificuldades, a “Contr’Ignorância” já ultrapassou o conceito tradicional de biblioteca. Tornou-se um verdadeiro centro cultural e educativo. Ali, aprendem-se jogadas de xadrez, novas palavras em inglês e os primeiros passos na alfabetização.
Há clubes de leitura, debates, concursos de soletração, sessões de ginástica e rodas de diálogo — “tudo pensado para estimular o pensamento crítico e dar voz à comunidade”.
Apesar do impacto visível, persistem desafios. Ainda há, segundo Adilson Gonçalves, pais que hesitam em permitir a participação dos filhos, muitas vezes por desconhecimento. Mesmo assim, o crescimento do número de leitores e o envolvimento progressivo da comunidade mostram que a confiança está a ser construída, passo a passo.

Para Adilson Gonçalves, o projecto é também uma história pessoal. “O que eu não vivi, estou a viver com eles”, confessa. Mais do que incentivar a leitura, acredita estar a ajudar a moldar futuros e deixa, por isso, um apelo que ecoa para além das paredes da biblioteca: “Leiam, leiam. Não é só sobre quem lê já não ser a mesma pessoa, mas sobre a nossa existência depender daquilo que lemos.”
Entre dificuldades e conquistas, a “Contr’Ignorância” afirma-se como um espaço de transformação social, um lugar onde cada livro aberto é um passo contra a ignorância e a favor de um futuro mais consciente.
Continua…
Por: Melinda Bentanita



